Primer Congreso Virtual Iberoamericano de Neurología  Barra de Navegación

CONFERENCIA - 1 DEL AREA CEFALEAS


ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E
IMPACTO SOCIAL DA CEFALÉIA

 

Dr. Carlos Alberto Bordini & Dr. José Geraldo Speciali

Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
Avenida Manoel Fustado 410
CEP 14-300 – 000 Batatais S.P. Brasil

 

A partir de 1988, com os critérios diagnósticos operacionais definidos pela Sociedade Internacional de Cefaléia, foi possível uniformizar e comparar os diversos levantamentos epidemiológicos realizados a partir de então. Antes desta classificação cada autor propunha critérios diagnósticos próprios. Mesmo utilizando-se estes critérios rigidamente, outras dificuldades metodológicas surgiram, algumas delas dificultando comparações de resultados.

Aspectos Metodológicos

Situações que dificultam o estudo da epidemiologia das cefaléias :

  1. Natureza episódica das cefaléias com períodos de acalmia e recrudescimento.
  2. Modificações quanto à intensidade e características da dor em cada ataque.
  3. Ocorrência de mais de um tipo de cefaléia num mesmo indivíduo sendo a associação mais freqüente a cefaléia tipo tensional e migrânea. Em geral o paciente lembra-se melhor da cefaléia mais recente ou da mais intensa e incapacitante. A simples mudança da pergunta "você tem ou teve dor de cabeça" para "você sofre ou sofreu de dor de cabeça" diminui a prevalência.
  4. Nem todos os estudos consideram o mesmo período de tempo no estudo da prevalência. Alguns referem a prevalência ao longo da vida, outros no período de um ano e outros ainda no mês ou no dia da investigação epidemiológica. Alguns não referem o período de tempo considerado. A prevalência diminui à medida que o período de tempo considerado diminui. Quanto maior o período considerado, menor a sensibilidade diagnóstica, pois os pacientes recordam-se com maior dificuldade das características das cefaléias mais antigas. Prevalência ao longo da vida indica o número ou porcentagem de pacientes da população que teve cefaléia desde o nascimento até o momento da pesquisa. A prevalência de um ano indica número ou porcentagem de pacientes da população que teve cefaléia no último ano.
  5. O diagnóstico das cefaléias primárias é baseado em informações do paciente. Não existem testes específicos para confirmação. As informações passadas pelo paciente são contaminadas pelo subjetivismo do paciente e do médico.
  6. Muitas vezes o levantamento estatístico é realizado através de questionários. Tais questionários são aplicados por um examinador ou vários, de acordo com o método utilizado. Tais questionários podem ser aplicados na casa do paciente face-a-face ou por telefone. Outras vezes, o questionário é enviado por correio solicitando-se resposta. Neste último caso, a percentagem de resposta nunca é de 100%. Estudos comparando-se a prevalência das cefaléias no grupo que não respondeu a primeira carta com o que respondeu mostram menor prevalência no primeiro grupo. Quanto maior o numero de não-respondentes, maior a prevalência encontrada. Calcula-se que se a porcentagem de respondentes cair de 75% para 65%, a prevalência pode sofrer acréscimo significativo ( Waters, 1994). Em qualquer destes métodos os critérios diagnósticos da SIC não podem ser integralmente satisfeitos pois, para isso, é necessário a realização de exame neurológico ( item E 1 – historia, exame físico e neurológico não sugestivos de um dos distúrbios listados nos grupos 5-11 ). Desta forma, estudos realizados por médicos neurologistas, em pacientes selecionados como representativos da população, seriam os preferíveis ( Olesen, 1994 ). Tal metodologia, no entanto, foi pouco utilizada até a presente data.
  7. A população estudada representa a principal causa de erro em muitos estudos. Alguns são realizados em clinicas de cefaléia, outros em unidades de emergência ou postos de saúde. Alguns estudos avaliam a prevalência em determinados grupos de pessoas como por exemplo em empregados de uma fabrica ou em escolas. Com certeza a prevalência de cefaléia nestas varias seleções de indivíduos será muito diferente entre si. Para o estudo da prevalência é muito importante a correta determinação da amostragem da população seja de um bairro, de uma cidade ou de um pais. A amostra deve conter a mesma proporção de ricos e pobres, jovens e idosos, as mesmas faixas etárias da população, as mesmas faixas de rendimento familiar etc.. Mesmo com a amostragem representativa da população, em países em desenvolvimento como o Brasil, como incluir a imensa parcela de desabrigados e descamisados ?
  8. Situações especificas de interpretação dos critérios diagnósticos da SIC também constituem-se problemas. Raramente uma dor de cabeça dura mais de 4 horas, um dos critérios necessários para caracterizar a migrânea, pois os pacientes tomam analgésicos antes disso ( Sakai e Higarachi, 1997). Para consideramos o diagnóstico de migrânea são necessários ao menos cinco ataques. No cálculo da prevalência anual, se o paciente teve 4 crises semelhantes no ano anterior e apenas uma no ano do cálculo da prevalência poderá ele ser considerado enxaquecoso ou deverá ter ao menos 5 ataques no ano da pesquisa ? O que deve ser considerado esforço físico para satisfazer ao item C. 4 (Lavados e Tenhamm, 1997 ) ?
  9. A caracterização de aura e sintomas premonitórios através de questionário auto-aplicado tem sido motivo de grande dificuldade de interpretação por parte dos pacientes. As grandes diferenças encontradas na prevalência da migrânea com aura derivam de diferentes interpretações dos sintomas que podem ser considerados como aura. Moscas volantes surgidas durante a dor é aura ou é necessário o aparecimento de teicopsias típicas ? Os questionamentos com respeito do que é aura migranosa, seja ela visual ou não, poderiam gerar polêmicas intermináveis.

 

Prevalência das cefaléias primárias

Colocadas as principais dificuldades encontradas num estudo epidemiológico sobre cefaléia, apresentamos alguns resultados publicados na literatura.

Vários estudos mostram que apenas uma pequena parcela da população nunca teve dor de cabeça. Na tabela 1 estão apresentados resultados da prevalência de cefaléia ao longo da vida calculada em alguns estudos.

Autores

Local da pesquisa

Idade

Sexo masculino

Sexo feminino

Crisp e col 1977

Reino Unido

Adultos

69

94

Rasmussen e col, 1991

Dinamarca

25-64 anos

93

99

Barea e col 1996

Brasil

10-18 anos

92,3

94,4

Tabela 1 : Prevalência de cefaléia ao longo da vida. Prevalências menores foramencontradas por autores que excluíram algumas causas de cefaléia comoressaca e o resfriado comum.

Bille ( 1962 ) refere que aos 7 anos 46% das crianças apresentaram cefaléia e aos 15 anos 75% delas já tiveram o sintoma, porcentagem próxima à prevalência ao longo da vida.
Rasmussen ( 1995 ) apresenta a prevalência ao longo da vida dos vários tipos de cefaléias primárias. Seus resultados estão apresentados na tabela 2

Cefaléias primárias


1.1 Migrânea sem aura 9% ( 7-11)
1.2 Migrânea com aura 6% ( 5-8 )
2.1 Cefaléia tipo tensional episódica 66% ( 62-69)
2.2 Cefaléia tipo tensional crônica 3% ( 2-5 )
3.1 Cefaléia em salvas 0,1% ( 0-1 )
4.1 Cefaléia idiopática em facadas 2% (1-4 )
4.2 Cefaléia por compressão externa 4% ( 3-6 )
4.3 Cefaléia por estímulo frio 15% (12-17 )
4.4 Cefaléia benigna da tosse 1% ( 0-2 )
4.5 Cefaléia benigna do esforço 1% ( 0-2 )
4.6 Cefaléia associada a atividade sexual 1% ( 0-2 )

Tabela 2 : Prevalência ao longo da vida de todas as cefaléias primárias com95% dos limites de confiança entre parênteses

 

Incidência e Prevalência da Migrânea

Das cefaléias primárias, a mais estudada sob o ponto de vista epidemiológico, é a migrânea.

O cálculo da incidência ( número de casos novos de migrânea num período de tempo para uma população ) da migrânea apresenta dificuldades. Poucos estudos foram realizados. Estudo conduzido por Stewart e col ( 1991 ) nos EUA demonstra que o pico de incidência é na adolescência e na juventude, declinando depois. O pico de incidência ocorre em idades menores nos meninos. Rasmussen ( 1995 ) calculou a incidência da migrânea na Dinamarca. Os resultados destes dois estudos estão apresentados na tabela 3

 

País / Incidência

Sexo masculino

Sexo feminino

USA

222

601

Dinamarca

180

650

Tabela 3 : Incidência de migrânea por 100.000 pessoas-ano

A prevalência das migrâneas foi estudas em vários tipos de população :

  1. Em pacientes de clínicas especializadas no atendimento de cefaléias
  2. Em pacientes que consultam clínicos gerais por causa da dor de cabeça
  3. Em pacientes que procuram unidades de emergência
  4. Na população
  5. Em grupos populacionais específicos, como por exemplo em estudantes de medicina, funcionários de empresas etc..
  6. Em varias faixas etárias
  7. Em várias classes sociais

 

Analisaremos preferentemente os dados representativos da população.

 

 

Faixa etária

Tempo

Sexo (M : F )

Amostra

Rasmussen e col, 1995

25-64

Longo da vida

Um ano

8:26

6:15

Populacional

Henry e col, 1992

>15

Últimos anos

6.1 :17,6

Populacional

Stewart et col, 1992

12-20

Anual

5,7 :17,6

Populacional

Sanvito e col, 1996

17-43

Anual

13 :26

Estudantes de medicina

Vincent e col, 1998

Adultos

Mensal

3,9 :8,2

Empregados de empresa

Barea e col, 1996

10 a 18

Anual

9,6 :10,3

Escolares

Tabela 4 : Alguns dados de prevalência da migrânea

 

Freqüência de crises : cerca de 16% têm mais de 1 crise ao mês, 25% cerca de 1 ao mês e em 59% as crises menos freqüentes ( estudo populacional, Rasmussen,1995 ). Em clínicas especializadas, 32% dos pacientes tem mais de 4 crises por mês ( Henry e col , 1992 ).

Procura por assistência medica : 44% não procuram assistência medica, 56% procuram médicos e, destes 19% especialistas. Vincent e col ( 1998 ) demonstraram que os brasileiros procuram primeiramente os médicos gerais depois os neurologistas seguido dos oftalmologistas, otorrinolaringologistas, pediatras, neurocirurgiões, ginecologistas psiquiatras, dentistas e outros. Os sintomas que fazem com que um paciente procure o médico são idade mais avançada, classe social mais elevada, aura, vômitos, diminuição da capacidade de trabalho. Os sintomas que aumentam a probabilidade do medico fazer o diagnostico correto de migrânea são : aura, vomito, sexo feminino, idade mais avançada, maior ganho familiar e unilateralidade da dor. Por outro lado os médicos gerais fazem diagnóstico de migrânea em apenas 45% dos pacientes que os procuram com a doença ( Stewart e Lipton, 1994. )

Raça : nos países da África e Ásia a prevalência da migrânea é menor que na Europa e EUA. Os negros e asiáticos americanos têm menor prevalência de migrânea ( Waters, 1994 ).

Não há diferença na prevalência comparando-se a população rural, de cidades medias ou grandes ( Göbel e col, 1994 ).

A aparente maior prevalência de migrânea nas classes sociais mais altas não resistiu aos estudos populacionais. Na verdade têm-se demonstrado que os indivíduos de classes sociais mais baixas têm mais dor de cabeça ( Stewart e col, 1992 ). As duas explicações possíveis seriam que os mais pobres estariam sujeitos a desencadeantes com maior freqüência ou o fato de crises freqüentes serem fatores limitantes na obtenção de melhores empregos. Estudos canadenses não encontraram relação entre ganho familiar e migrânea ( O’Brien e col, 1994 ).

Os grupos populacionais com maior prevalência são o(a)s enfermeiros, professores primários, executivos médios e trabalhadores do campo (Henry e col 1992)

 

Prevalência da Cefaléia Tipo Tensional ( CTT )

A cefaléia tipo tensional episódica é o tipo mais freqüente de cefaléia primaria.

Estudos epidemiológicos são pouco divulgados na literatura. Alguns fatores concorrem para este fato :

  1. A dor da cefaléia tipo tensional é mais branda, menos incapacitante e é acompanhada por poucos distúrbios autonômicos,
  2. É freqüente estar associada, num mesmo indivíduo, com a migrânea ( 83% dos migranosos também têm CTT, Rasmussen e col, 1992 ) e o paciente, num questionário, descreverá a dor que mais marca sua vida, esquecendo-se da tensional. Esta será relatada quando o entrevistador perguntar enfaticamente sobre outros tipos de dor de cabeça,
  3. A migrânea não tem intensidade e demais características constantes em todos os ataques. É difícil, para o entrevistador, optar entre o diagnóstico de CTT e migrânea pouco intensa, mesmo com os critérios da SIC à mão.

A prevalência da CTT pode ser calculada tomando-se o período de tempo variável ao longo da vida, anual ou mensal.

Recentemente foi publicado o mais importante trabalho sobre a epidemiologia populacional da CTT sendo estudado um total de 13.345 sujeitos do Condado de Baltimore, Maryland ( Schwartz e col, 1998 ) através de entrevista conduzida por telefone. Os resultados foram validados através do atendimento, feito pelos autores, de amostra da população submetida ao questionário telefônico.

Na tabela 5 estão expostos alguns dos resultados da prevalência da CTT episódica ( CTTE ) registrados na literatura.

Autores/ano

Idade

Período

Homens

Mulheres

Amostra

Rasmussen e col,1991

25 a 64

Toda vida

Um ano

69

63

88

86

Populacional

Schwartz e col, 1998

18 a 65

Um ano

42,3

46,9

Populacional

Barea e col 1996

10 a 18

Um ano

68,3

76,7

Escolares

Crisp e col, 1977

Adultos

Toda vida

29

35

Populacional

Göbel e col 1994

18 a 60

Toda vida

34

36

Populacional

Tabela 5 : Prevalência da cefaléia tipo tensão episódica ( CTTE ).

 

Os autores americanos encontraram maior prevalência nos caucasianos que nos negros e nos com maior nível educacional. O pico ocorre na 4ª década. 35% dos pacientes têm de 1 a 7 crises anuais, em torno de 60% de 8 a 179 crises anuais e 3% mais de 180 crises por ano.

A CTT crônica ( CTTC ) tem prevalência bem menor. Está presente em cerca de 2,2 a 3 % ( 2% dos homens e 3% das mulheres, Mathew, 1993) da população, predominando também no sexo feminino ( 2 :1 ). Ao contrário da CTTE não há nítido predomínio nos brancos e é mais freqüente nos com menor nível educacional. Enquanto a prevalência da CTTE diminui com a idade a CTTC aumenta (Schwartz e col, 1998).

Hormônios sexuais também influenciam a CTT. Comparada com a migrânea a influência hormonal é bem menor. As CTT podem piorar na época menstrual, melhorar durante a gravidez e depois da menopausa.

Os pacientes com CTT procuram médicos muito menos freqüentemente que os que tem migrânea. Cerca de 16% procuram o clínico geral e apenas 4% os especialistas.

 

 

Prevalência da Cefaléia Crônica Diária ( CCD )

Calcula-se que cerca de 2 a 5 % da população tenha CCD. Numa clínica especializada no atendimento de cefaléias chega a 40 a 60 %. Predomina no sexo feminino em proporções relatadas de até 7:1. Ocorre em faixas etárias maiores que a migrânea e a CTT. Em cerca de 75% dos casos é precedida por migrânea e em 7 % por CCTE. Em torno de 18% surge em pacientes sem antecedentes de cefaléia ( Mathew, 1994 ). Jevoux (1996 ) encontrou dados um tanto quanto diferentes; a percentagem de paciente sem antecedentes de cefaléia foi de 3,9 enquanto que os com antecedente de CTT foi de 21,1.

A CCD é o motivo mais freqüente do paciente procurar o médico e, quando o faz, vem pelo receio de ter um tumor ou um aneurisma.

Mais de 50% dos casos abusam de analgésicos.

 

IMPACTO NA VIDA DIÁRIA CAUSADO PELA ENXAQUECA

A enxaqueca é condição que varia amplamente tanto em sua intensidade global como na intensidade de cada crise. Vamos desenvolver o tema pretendendo mostrar quais os esforços têm se realizado para se medir a gravidade da moléstia, veremos também que a avaliação somente da dor é um parâmetro incompleto, quais outras variáveis têm sido estudadas e quais os resultados que nos mostram o real impacto da migrânea não só sobre o indivíduo como para a sociedade como um todo.

Relação entre a sintomatologia migranosa e a diminuição das capacidades

As crises variam na intensidade da dor, em sua intensidade, na importância dos sintomas associados e na freqüência das crises. Entre os sintomas acompanhantes, náuseas, vômitos, visão turva e foto e/ou fonofobia são mais comuns nas mulheres, ao passo que nos homens auras visuais e somato-sensitivas são mais comuns.

A sintomatologia varia ao longo do tempo, a consistência dos sintomas foi avaliada em um cohort de 2 anos nos USA os sintomas mais consistentes (os pacientes continuam apresentando após 2 anos) são dor hemicraniana (75%), caráter latejante (72%), e fotofobia (65%).

Henry e col em estudo nacional na França encontraram a seguinte distribuição de freqüência de crises: menos de 1/mês: 17%; 1/mês: 32%; 2 a 4 /mês: 40%; mais de 1/semana: 10%. Encontraram também a seguinte distribuição de duração de crises: 2 a 4 hs: 25%; 6 a 12 hs: 12%; 4 a 6 hs: 19%; cerca de 1 dia : 24% e 2 a 3 dias: 15%. Quanto à intensidade da dor: intensa ou muito intensa: 58 a 85% dos pacientes. As mulheres de maneira consistente relataram seus ataques como mais intensos que os homens; também as mulheres costumam ter maior freqüência de crises.

A Diminuição das Capacidades é qualquer restrição ou falta de capacidade para realizar uma atividade na maneira considerada normal para o ser humano (OMS).

Para a migrânea a Diminuição das Capacidades devido aos sintomas pode ser profunda. A intensidade da dor seria o principal fator, porém não o único. Há migranosos que mesmo sem dor intensa experimentam altos níveis de Diminuição das Capacidades e outros com dor muito intensa e sem Diminuição das Capacidades.

Em estudo canadense durante as crises, 77% dos sofredores têm limitações de atividade, 50% interrompem suas atividades e 30% têm que deitar-se. Em um estudo de prevalência nos EUA realizado por Lipton e Stewart foi avaliado o grau de diminuição das capacidades provocado pela migrânea. Nenhum 12.%; leve ou moderado: 51.3%; intenso/ vai para a cama: 35.5%; não sabem: 1%. Portanto 86.8% dos pacientes têm diminuição das capacidades devido à migrânea.

Como nos referimos na introdução veremos também como a migrânea afeta a qualidade de vida.

Efeitos da migrânea na qualidade de vida dos pacientes

Um dos maiores avanços na área de saúde da última década foi o crescente consenso sobre o valor de se medir o impacto de uma moléstia na qualidade de vida relacionada à saúde. A opinião do paciente é fundamental para se avaliar o resultado do tratamento, sendo mesmo que o objetivo do tratamento para muitos pacientes seria obter uma vida mais "eficaz" que preserve seu perfeito funcionamento e bem-estar. Apesar de o paciente ser o melhor juiz, dados referentes às suas experiências não são coletados de rotina. Uma das razões era a inexistência de instrumentos válidos para se medir a qualidade de vida, o que recentemente tem se desenvolvido.

Medindo-se a qualidade de vida

O amplo espectro que constitui a sensação de bem-estar inclui o funcionamento físico, mental, bem-estar, limitações de atividades e a sensação geral de saúde. Há 2 maneiras básicas para se avaliar a qualidade de vida. As avaliações genéricas como o por exemplo o Short-Form-36, que proporciona uma opinião auto-relatada do paciente comparando o ônus atribuível a determinada condição com os de outras moléstias e com pessoas tidas como saudáveis. As avaliações de condições específicas permitem aferições para moléstias específicas (exemplo, Migraine Specific Quality of Life- MSQOF).

Aparentemente a migrânea, ainda que seja uma condição crônica, entre os ataques, o paciente tem sido considerado como de excelente saúde. Estudos recentes têm mostrado contudo que migranosos têm significativas limitações na qualidade de vida em relação a população saudável e mesmo quando comparados a outras condições crônicas.

O SF-36, um questionário para avaliações genéricas mede os 8 aspectos seguintes da qualidade de vida:

  1. Função do papel físico (a extensão em que a saúde interfere com as atividades diárias como o trabalho).
  2. Dor (nas 4 semanas prévias).
  3. Funcionamento social (extensão em que a saúde interfere com atividades sociais).
  4. Saúde mental de maneira geral (nas 4 semanas prévias).
  5. Funcionamento físico (capacidade de realizar tarefas mais ou menos básicas, ex. vestir-se).
  6. Percepções gerais da saúde (como seria taxada a saúde).
  7. Vitalidade (energia geral nas 4 semanas prévias).
  8. A função do papel emocional (extensão na qual os problemas emocionais interferem com a vida diária).

Osterhaus et al usaram o SF-36 para comparar migranosos com a população em geral saudável. Migranosos que se classificaram como moderados, intensos ou muito intensos tiveram escores inferiores nas medidas de dor, funcionamento social, a função da condição física, funcionamento físico e saúde mental.

Aplicação do SF-36. Comparação entre pessoas saudáveis e migranosos.

Aspecto da qualidade de vida População Geral Migranosos moderados Migranosos intensos
Dor 84 59 41
Função do papel físico 92 63 42
Funcionamento social 90 79 61
Condição física 93 87 76
Saúde mental 81 69 65

Esses autores compararam também com o auxilio do SF-36, a migrânea com outras moléstias crônicas como osteo-artrítite, diabetes, depressão e hipertensão arterial sistêmica. Migranosos relataram significativamente mais dor, maior restrição para as atividades diárias, pior estado mental, e funcionamento social. O quadro que não diferiu de enxaquecosos foi a depressão.

 

Aplicação do SF-36. Comparação entre migranosos e portadores de outras moléstias crônicas.

Aspecto da qualidade de vida Migrânea Depressão Osteoartrite Diabetes Hipertensão arterial
Dor 51 73 69 83 83
Função do papel físico 54 63 67 77 79
Saúde mental 67 54 77 77 78
Funcionamento social 71 68 90 89 92

 

Avaliações de qualidade de vida específicas para a migrânea (MSQOL).

O MSQOL é mais recente, porém já mostrou-se válido e consistente. Foram avaliados dados dos USA e do Reino Unido a respeito do número de crises e sua duração. O produto dessas variáveis fornece o tempo perdido em determinado período. Em ambos países houve correlação inversa entre qualidade de vida avaliada pelo MSQOL e o tempo perdido devido à migrânea.

Em suma, podemos dizer que os migranosos relatam diminuição de seu funcionamento e de bem-estar tanto quando comparados com pessoas saudáveis como com outra moléstias crônicas. A enxaqueca seria assim, tão debilitante como outra moléstias consideradas mais sérias.

Resumindo:

 

Efeitos da migrânea sobre as conquistas na vida, sobre a vida social e familiar

Já sabemos muito sobre a prevalência e sintomatologia da migrânea, assim como seu custo em termos de cuidados médicos e absenteísmo. Porém se olharmos para o indivíduo, que vive um conjunto único de circunstâncias, veremos que a migrânea afeta também as atividades sociais e familiares, e este acometimento pode levar a problemas no trabalho ou na escola e à uma possível deterioração educacional e no serviço.

Efeitos nas atividades diárias.

No Canadá, foram estudados os efeitos da última crise migranosa (n=709 ): 19% faltaram do serviço, 31% cancelaram atividades familiares e 30% atividades sociais. A duração média da limitação foi 8 horas, 77% referiram limitação de atividade e 30% necessitaram deitar-se.

Nos USA, 38 milhões de dias são perdidos pelas donas de casa por ano, levando a conseqüências sobre o cuidado das crianças e do lar difíceis de serem avaliadas.

Provavelmente a natureza imprevisível da moléstia cause um maior estresse e leve os pacientes a ter dificuldades em organizar uma vida familiar normal.

Além disso, raramente se menciona, os migranosos têm temores. Os 10 principais:

Tumor
Perda de serviço (inclusive doméstico)
A intensidade da dor
Ficar louco
Freqüência ou duração da crise
Interferência com atividades sociais
Efeitos colaterais dos medicamentos
Sofrer um AVE
A cabeça explodir
Ficar cego definitivamente

Devido a esses temores e ao impacto da migrânea nas atividades, substancialmente modifica-se o comportamento normal dos pacientes.

Mais de 75% deles evitam supostos desencadeantes, muitos têm afetada sua decisão acerca de empregos, evitam situações sociais, festas que possam desencadear crises.

A migrânea diminui significativamente a qualidade de vida não somente durante os ataques como nas remissões quando ansiedade medo e incerteza contribuem para uma gradual retirada da maioria dos contatos sociais.

Efeitos da migrânea sobre a educação

Breslau et al estudaram 1007 jovens migranosos. A maior porcentagem deles não termina o ensino médio e a menor porcentagem completa a universidade. Outros estudos também indicam que migranosos têm menor desempenho acadêmico.

Foi estudado em Aberdeen o absenteísmo escolar por migrânea. Encontrou-se uma média de 2,8 dias /ano (0-80). Além do mais, migranosos perdiam mais dias (5,0) por outras doenças que os não migranosos (3,7) indicando que os migranosos podem ser mais vulneráveis, talvez pela ansiedade dos pais.

 

Efeitos da migrânea sobre o emprego.

Crises intensas ==> perdas de dias de serviço => diminuição da produtividade ==> que leva:

=>ansiedade => comportamento de esquiva =>

limitar as oportunidades de serviço => diminuição da renda => rebaixamento do status sócio-econômico

Estudos europeus mostram que o migranosos perdem em média um a 4 dias/ano de serviço devido às crises e que trabalham cerca de 8 dias/ano com dor, quando têm sua capacidade reduzida em até 60%. Assim, não somente o absenteísmo como a redução do desempenho devem ter conseqüências a longo termo alterando as possibilidades de conquistas e diminuição da renda.

Von Korff e col propuseram uma classificação que envolvesse a dor e a limitação imposta pela crise:

  1. Grau I (pouca dor e pouca limitação)
  2. Grau II (intensa dor e pouca limitação)
  3. Grau III (limitação moderada)
  4. Grau IV ( grande limitação)

Usando esta classificação em um grupo de 779 pacientes. Cerca de um quarto dos indivíduos de grau IV estavam desempregados, valor que cai para 10% para os com grau III, e menos de 5% para graus I e II.

Efeitos da migrânea sobre a renda

Ainda que hajam dados conflitantes, o importante estudo de Stewart e col. Mostra uma clara relação invertida entre prevalência de enxaqueca e renda familiar, nos grupos com renda anual menor que US$ 10 000, a prevalência de migrânea é 60% maior que nos grupos com renda acima de US$ 30 000. Estudos conduzidos na Alemanha, Bélgica, Dinamarca não chegaram a resultado semelhante. Provavelmente outros fatores possam estar envolvidos, por exemplo, mulheres que constituem a maioria da população migranosa, tendem a ganhar menos que homens, também pessoas com maior renda podem considerar um sinal de fraqueza e assim relutarem em admitir ter migrânea.

 

Resumindo, a migrânea pode causar profundas alterações emocionais e no estilo de vida, os pacientes podem desenvolver estratégias de lidar com a moléstia que o levam a retirada de atividades familiares e sociais. A maioria tem temores a respeito da dor.

 

Os custos da migrânea para a sociedade

O conceito de custo de doença vem da percepção que a moléstia cria um ônus para o paciente, família e para a sociedade. Análise do custo de doença tenta padronizar e quantificar esse ônus e expressá-lo em termos monetários.

Os custos diretos incluem os cuidados médicos (diagnóstico, tratamento, medicamento), outros custos como transporte, equipamentos especiais. O custo agregado inclui gastos com pesquisas médicas, treinamento profissional, construções de edifícios, e administração de serviços. Na prática alguns custos são difíceis de avaliar, por exemplo custos com pesquisas básicas.

Custos indiretos medem-se em termos de valor de produção perdida que é atribuído à enfermidade, incluindo perdas de vencimentos e estimativa do valor dos serviços domésticos. A diminuição de efetividade no trabalho também deve ser avaliada e mensurada. Outros custos indiretos incluiriam menores oportunidades de promoção e educação, o paciente Ter que submeter-se a mudanças de serviço que não eram pretendidas e o tempo perdido pelos acompanhantes.

Os custos são mais baixos na Europa que nos EUA pois aí há maior uso de hospitalização, unidades de emergência e consultas com especialista.

Nas Tabelas vemos os custos com migrânea em alguns países. Vale a pena ter em mente que ao rever literatura, que estes valores variaram de acordo com a pesquisa.

Custos diretos com migrânea.

País Custos de drogas vendidas com prescrição Custos de drogas vendidas sem prescrição Custos diretos totais
EUA (*) US$ 2,7 bilhões US$ 718 milhões US$ 9,4 bilhões
Austrália A$ 9,9 milhões A$ 2,7 milhões A$ 38,2 milhões
Suécia SEK 6 milhões SEK 9,1 milhões SEK 86,7 milhões
Holanda NLG 11,5 milhões NGL 7,8 milhões NLG 133,7 milhões
Reino Unido £ 15,7 milhões £ 0,9 – 2,2 milhões £ 22,6 – 23,9 milhões

Custos indiretos com migrânea. Avaliou-se aqui os custos das perdas de dias de trabalho e dos dias com menor efetividade devido a migrânea. Por exemplo se o paciente rendeu 50% de sua capacidade em período de horas correspondentes a 12 dias de serviço, computa-se: 50% de 12, isto é 6 dias.

Custos indiretos advindos da migrânea.

País Custos
USA US$ 1,4 a 17,2 bilhões
Reino Unido £ 611 a 741 milhões
Holanda NLG 541 milhões
Suécia SEK 226 milhões
Itália L 2000 bilhões

 

 

Cefaléia Tipo Tensional e Cefaléia Crônica Diária

A cefaléia tipo tensional também traz prejuízos para o paciente mas, menos que a migrânea. A Cefaléia Crônica Diária é pior, como vemos nos dados expostos na tabela 8.

 

 

Perda

Diminuição

CTTE

8,3%
19,0% ( 14 )**
12%

43,6% (Schwartz, 1998)
82%
60% (Rasmussen,1994)

Migrânea

31%( 17 )*
30%
35%
43%

96%*
77%(Pryse-Phlillips,1992)
51%(Stewart,1992)
aprox.= 100%(Rasmussen,1994)

CCD

20% desempregados
11,8%

80% improdutivos (Mathew,1993)
46,5% (Peterson-Braun,1994)

Tabela 8 : Dias de trabalho perdidos e diminuição da capacidade para o trabalho na Migrânea, CTTE e CCD

 

Devemos entender que o paciente com cefaléia não está plenamente capacitado para exercer com toda capacidade suas tarefas e devemos respeitá-lo como doente. A prevalência de dor de cabeça na população é elevada mas podemos reduzir seu ônus a um mínimo se tomarmos medidas de orientação e tratamento adequadas. Tais medidas devem ser tomadas incentivando o paciente em procurar um medico usando a mídia se isto for necessário. Os médicos precisam ser orientados, fazendo-os entender a importância e necessidade de ver o enxaquecoso como doente tratando-o como pessoa ou encaminhando-o para outro profissional, mais experiente no manejo das cefaléias.

Podemos concluir que o estudo a epidemiologia das cefaléias é fundamental para o planejamento de estratégias de abordagem para este importante problema de saúde, a nível de ensino médico e educação da população .

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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